segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Porto Poesia 3



O Porto Poesia alcança sua terceira edição. Sábado, dia 10/10, Nos Lemos esteve lá e com a participação especial da atriz Letícia Schwartz, que magistralmente interpretou o Labirinto de Eusmim. Não poderíamos olvidar jamais uma das matrizes do Saindo da Gaveta, grande projeto literário que originou o http://noslemosporai.blogspot.com/. E agora vamos à Bienal B e depois à Feira do Livro de Porto Alegre. O próximo encontro será dia 27/10 no Bar 512 (rua João Alfredo, 512 - Porto Alegre). Além de nossa produção, lemos também alguns poemas de Castro Alves, Manuel Bandeira e Fernando Pessoa. Agora, à estrada.

Bruno Brum Paiva

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Projeto BA - O Desacampamento



Levantando a Âncora



Imbassaí, onde o rio beija o mar. A jangada é lenta e silenciosa no seu deslisar fluvial. Cocoroska, a caipira de água de coco. Mais sururu, outra tapioca. A chuva vai e o Sol volta. É a última semana.

Guarajuba, uma longa caminhada pelo calçadão à espera que a maré baixasse. Baixou também o maior camarão que vi no prato. Numa atitude que nos deixou perplexos, o garçon trouxe uma bacia com água, sabão líquido e uma toalha branca para que lavássemos as mãos à beira-mar sem o incômodo de um deslocamento até o banheiro. É a superação do conforto. Guarajuba fica no município de Camaçari e a 13 km da fábrica da Ford. Fizemos uma pequena enquete sobre o impacto de tamanho empreendimento. Pouca empolgação. Acho que o governo da época acertou em substituir a fábrica pela criação da Universidade Estadual, a UERGS.

Castelo Garcia D'Ávila, uma construção iniciada em 1551 e concluída em 1624. Sede de um latifúndio que correspondia à décima parte do território brasileiro. Localização privilegiada no topo do morro e de frente para o mar. As ruínas impressionam pela robustez das paredes e a perfeição dos arcos. A pequena capela, totalmente restaurada, possui uma acústica perfeita às orações, ao canto, à conversa ou simplesmente ao silêncio. Absoluto.

Itacimirim, a última praia que conhecemos. O rio Pojuca separa os municípios de Camaçari e Mata de São João. Sururu, camarão, bolinho de peixe, caipiroska, piscinas naturais, caranguejos, conchas de vários tamanhos e uma luz dourada que o cair da tarde nos presenteara. À noite, a despedida bailante no restaurante da Nati. Muito samba, muito chorinho, muita brasilidade musical de toda sorte. O fechamento outra maneira não deve ser que não a de ouro.

Mario Benedetti e Vitor Ramil, nossos balizadores literários da viagem. Dois mundos, duas experiências, dois imaginários a construir o presente já esqueletado. Várias páginas decifradas na rede do albergue e na poltrona do avião. Manuscritura em cada bar ou mesmo no ar. Muito sono, muita paz e acima de tudo muita reflexão nesta trajetória pensada e conquistada para a impregnação em nosso íntimo sob a alcunha PROJETO BA. Enfim, a palavra jamais olvidada: o b r i g a d o!
Bruno Brum Paiva

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Cap. 6 - Itapuã e Pelourinho


Itapuã
"Passar uma tarde em Itapuã, ao Sol que arde em Itapuã". Eis um desejo antigo de ver o que viram os olhos de Vinícius, debruçar o olhar por onde areia, oceano, pedras, cactos, despenteados coqueiros, espigões e o Farol, aquele sinalizador náutico único, singular, listrado, marcado no imaginário de todos nós. Estamos em Itapuã comendo agulhinhas e tomando caldo de sururu. Solaço a pino, ventinho manso e um suave rádio a tocar música brasileira de primeiro porte. Parece mentira, mas ficamos duas semanas na Bahia sem os ruídos de Ivete Sangalo e Daniela Mercury. Nenhuma vez. Abençoamos os pés na água azul de uma maré crescente. Muita caminhada e, por fim, uma conversa ao lado de Vinícius mirando a beleza do Farol de Itapuã.
Salvador está enorme; o trânsito, insuportável. Levamos quase uma hora até o Pelourinho. Muita abordagem, uma insistência cansativa por toda parte. Andamos no Elevador Lacerda, entramos em algumas igrejas e zarpamos para a Praia do Forte. Definitivamente somos viajantes na busca do conhecimento com lazer, jamais do ponto turístico.
Bruno Brum Paiva

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Cap. 5 - As Baleias e as tartarugas marinhas



Sempre gostei de animais, sobretudo os de grande porte. Domesticar um cavalo exige uma habilidade e um grande respeito. E depois que ele fica amigo e confiante na pessoa, difícil imaginar a força que continua possuindo. Mas num leão não se monta e tampouco numa baleia. A jubarte atinge o peso de 30 toneladas, porém sua leveza e rapidez no oceano lembram a agilidade de um felino. Ela brinca, pula, se esconde, ressurge ao lado do barco, borrifa, espia, se joga de lado, de costas, bate com a cauda n'água como se fosse a palma de nossa mão. Quando está num grupo faz uma verdadeira competição acrobática.

Ignoramos o pedido de silêncio. Impossível não vibrar, gritar, aplaudir as enormes baleias em seus saltos e sopros. Elas chegam muito perto do barco, conferem o que está acontecendo e, conforme seu humor, dão um verdadeiro espetáculo ou simplesmente desaparecem na profundeza das águas atlânticas.

Fizemos dois passeios em alto mar. No primeiro o vento estava forte demais, e o susto foi maior que o prazer. Nada de baleias. Na segunda tentativa, a compensação. Céu azul, mar liso e muitas baleias por todo lado. É uma experiência singular, profunda, verdadeira e muito emocionante. As baleias existem e sorriem aos que se aventuram a visitá-las.

O Projeto TAMAR é outro grande marco da Praia do Forte. Criado em 1980 para proteger as tartarugas marinhas em extinção, hoje é uma referência internacional no processo de conscientização da população nativa e também dos visitantes. Acompanhamos a salvação de um filhote por parte de um mergulhador. O pequeno réptil estava agonizando numa poça de óleo na beira da praia quando chegou o socorro. Foi lavado, massageado e conduzido ao Projeto TAMAR para um tratamento. Acompanhamos o trajeto e acabamos fazendo amizade com a equipe. Visitamos várias vezes a tartaruguinha, que dia após dia estava mais serelepe. A ideia da equipe era de que nós a devolvêssemos ao mar, uma forma de agradecimento pela atenção que dispensamos. Não foi possível. Voltamos a Porto Alegre pensando nela. Hoje recebemos a notícia de que foi devolvida ao mar completamente recuperada.

Os saguis são outros habitantes que vivem soltos por toda a vila de pescadores que compõe a Praia do Forte. É mata atlântica, é o habitat dos símios. Às vezes aparecem em bandos, e até uma briga feia presenciamos por conta de um estranho que surgiu. Se não é da turma, não fica. Mas quando é, a festa é grande. E sabem a hora da exibição à máquina fotográfica. A decisão sempre é deles, não do fotógrafo.


Bruno Brum Paiva



domingo, 27 de setembro de 2009

Cap. 4 - O albergue


Albergue Praia do Forte
Conheci o primeiro albergue em Recife há cerca de quinze anos. Era o Projeto Nordeste nas Estrelas, cujo intuito era o experimentalismo de uma vida num outro lugar completamente distinto dos pampas sulinos. Lá conheci o banho de piscina. É verdade, fui entrar nesse grande tanque pela primeira vez aos 26 anos. E gostei. Gostei de tudo, de toda a proposta de uma hospedagem em albergue. Depois vieram outros como o da Praia de Iracema, em Fortaleza, e o Cidade do Sol, em Natal.

A escolha da Praia do Forte foi muito influenciada pela qualidade do seu albergue. Boas informações no site, desde preços a todos as vantagens e acessos por conta de seus convênios. Tudo pela web. Arriscamos. E eles cumpriram à risca tudo o que estava proposto, sem enrolação, sem desculpas, sem adendos. Enfatizo bem essa questão, primordial numa viagem, pois não é raro entrar num pacote que muitas vezes está furado. Acertamos tudo antes da saída. Reservamos, pagamos a metade e lá estava o quarto ONÇA. Depois até vimos outros bichos: tartarugas marinhas, baleias, saguis, gatos, tubarões, jegues e até quero-quero. Sabiás cantantes à primavera, só em Porto Alegre.

O café da manhã no albergue é uma verdadeira comunhão. Aquele ''bom dia'' é sempre cúmplice de um grande passeio que foi ou será realizado. A comunicação acontece, e é nessas horas que a importância de se dominar outro idioma é primordial. Estavam hospedados alguns ingleses, alemães, norte-americanos, argentinos e brasileiros dos mais variados recantos. Como a coincidência não pode ser deixada de lado encontrei uma pessoa que, após um longo exercício de memória, se deu conta de que realmente nos conhecíamos. E da Agência Filatélica. Escrever cartas continua sendo uma prática, mesmo da novíssima geração.

Praia do Forte, para voltar; Albergue Praia do Forte, sem pestanejar.


Bruno Brum Paiva

sábado, 26 de setembro de 2009

Cap. 3 - Dois olhares sobre Raimundo

Facão laminado na mão ligeira. Alisa o cabo, limpa o coqueiral. A mata inteira é do Raimundo, que mede cada coqueiro com o olhar. Sabe com precisão quantos abraços necessita até alcançar o apinhado cacho. "Ainda não nasceu coqueiro que eu não tenha conseguido subir", repete como se fosse um mantra.
Pergunto se aquele coco é para vender. Ele responde que não, que apenas limpa o coqueiral para não cair seus frutos em cima das casas com o vendaval dessa época do ano. E os cocos? Eles ficam aí para quem quiser, pois esse coco grande ninguém compra. Coco do chão é do mundo, não tem dono não.

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Raimundo

É do coco, é do mundo

facão laminado na mão ligeira

limpa o coqueiral, alisa o cabo

a mata inteira é do Raimundo.

Raimundo mede o coqueiro com o olhar

sabe quantas braçadas necessita

para alcançar o apinhado cacho.

Tá por nascer coqueiro que eu não suba.

Nativo compra não o coco que bebe

só bebe o que encontra no chão

coco do chão é do mundo, tem dono não

fica solto para quem quiser levar

o que tá no chão é do mundo.

Bruno Brum Paiva


Cap. 2 - Uma Mulher Brava


A trajetória entre a Praia do Forte e o Aeroporto de Salvador teve um momento peculiar. No trevo de acesso a Itacimirim embarcou uma cabra furiosa da peste. Pelo sotaque parecia pernambucana, mas era melhor não perguntar de onde veio. Entre os muitos episódios envolvendo sua brabeza destaca-se o enfrentamento ao ex-marido armada de facão, peixeira e faquinha de serra. Para não falhar. Ela chuta, bate, se bota, não tem medo de nada nem de ninguém. Noite é dia e dia é noite. Enfrenta tudo. Da palavra ao murro e deste à facada é uma questão de segundos.


"Maria Ferreira me chamo e até hoje só levei tapa na cara de painho. E quando era menina, porque depois de grande veio me bater e eu dei um empurrão que ele caiu de cabeça no chão. Nunca mais chegou perto d'eu. Minha mãe dizia que eu deveria ter nascido homem. Homem pra quê, se o que mais tenho é coragem e força? Homem só monta em mim naquela hora - e tem que fazer bem feito se não eu dou é de unha nele. E tem mais: gosto de beber e bebo tudo: vodca, conhaque, cachaça ou cerveja. Sou forte na bebida, não só dessas que bebe, perde a cabeça, tira a roupa. Fico bêbada não. E, se já tô braba, aí é que a fúria aumenta.E garrafa eu quebro na primeira batida e já vô pra cima do cabra. Me chamo Maria Ferreira."

Quando ela pronunciou seu nome, logo pensei: é parente do Virgulino. O rei do cangaço deixara descendentes por onde essa mulher nasceu, tá aí o sangue refinado do maior vingador de Serra Talhada. Mas ela não parou de falar, e minha suposta árvore genealógica perdeu o fio da meada.


Os passageiros trocaram olhares. Um deles, evangélico, cochichou para o outro que ali faltava uma pitada de Jesus no coração da cabocla. "Já pensou, motora, que tal chegar em casa e essa mulé te esperando bem afiada? Eu largo é fora, que nasci com as canelas fina e boa pra disparada.Tô aí pra morrer de besta? Se ela é assim, imagina o pai dela." Pensei na importância de se pagar o seguro facultativo - viagem dessas requer periculosidade.

Ao descer em Lauro de Freitas, última cidade antes de Salvador, até o ônibus ficou mais leve. A vivente falou em pouco mais de meia-hora que até parecia um filme, um comício, um espetáculo, um episódio... afaste-se dessa mulher!

Salvador ia ficando pequeno na ponta da asa direita da gigantesca aeronave. Durante o voo fiquei pensando na infância, na adolescência, na vida de Maria Ferreira. Que força nas palavras!


Bruno Brum Paiva