sábado, 2 de novembro de 2013

F I N A D O S














Estou no meio de indefinições
definidas
de culto aos mortos
falando
adorando
orando
ou florescendo túmulos.
A eternidade e o silêncio
são interrogações
e o culto assiste,
passivo,
as mutações da natureza.

Bruno Brum Paiva

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Sineta Opaca



   Hoje inicia a 59ª Feira do Livro de Porto Alegre.
   Silenciosa.
   Faltará sempre a sineta do Xerife La Porta.
   Bênção!


             Bruno Brum Paiva

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Abertas Gavetas

    
    No Brasil  inteiro, eleições - apogeu do exercício democrático através do sufrágio universal. Para o vivente em questão que por ora remete essas linhas, uma data histórica: hoje faz vinte e um anos que tive minha primeira publicação impressa. Mesmo de forma coletiva, em meio àquela salada de frutas de novos escritores, lá estavam seis páginas em que reinava absoluto com embrionários poemas. Talvez hoje não escreveria dessa forma, mas com certeza não reescreveria e tampouco renegaria esse registro  que os sentidos e sentimentos da vida por ali deixaram marcados.


    NOITE

Noite
Negro lençol que interroga o amanhã
teus filhos saem aos bares,
em ti,
pelas ruas e campos.
Noite
tens os mistérios guardados,
defuntos atentos,
o tempero da brisa
e seus aliados.
Romântica
vitoriosa ou derrotada
a natureza humana busca na noite
o todo
o momento reflexivo
ativo ou passivo.
Noite
tens o aroma de liberdade
traduzido no estrelar,
oculto no nublado
ou satisfeito na existência.

                             Bruno Brum Paiva

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Terra à Vista


 
  Iemanjá levou nosso Caesalpinia echinata para a beira do rio, enquanto pescadores conduziam a imagem pelas águas do Guaíba paralelamente à multidão que transitava com vagar e fé pela Castelo Branco até a Igreja de Navegantes. Dois de Fevereiro era festa da padroeira de Porto Alegre, momento singular onde múltiplas forças se convergem num ato de muita densidade humana.

  Dia especial para nosso Caesalpinia mudar de casa. Após ser ruminado pela burocracia e até rejeitado pelo Jardim Botânico e pela SEMA, sob o dogma arboreofóbico de que planta não guasca não habita fecundas praças de nossos pampeanos matagais, o pau-brasil já quase árvore que no Mosteiro reinava soberbo, finalmente encontra uma terra na beira do rio em dia de Iemanjá.

    Aceito com carinho e regado em sua chegada, Caesalpinia já foi apresentado aos ipês, tipuanas, maricás, jacarandás, quero-queros e pica-paus seus vizinhos. Poderá estufar o peito ramificado, ampliar a gema apical e encravar suas raízes até que a idade adulta o permita chegar aos vinte metros. Entroncar-se, florescer e oferecer a sombra fresca que tempera as conversas mateadas. É muito bom saber que há exatos oito meses Iemanjá levou o pau-brasil para a beira do rio, no Beira-Rio.



                                    Bruno Brum Paiva









segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Simpatia de Benzedeira

               



        











            - Acenda as velas!
      O estrondo chega seco, quase junto ao piscar do relâmpago. Marina está assustada. Depois daquele, cada iminência de um temporal alimenta o trauma. "Tudo de novo, não"! Os olhos arregalados miram a cruz de sal sobre o prato branco, bendição repetida por sua mãe a cada prenúncio de tempo instável. A voz de dona Aurora sai desengasgada: “minha filha, vai passar. Acenda as velas, leia a oração e deite”.
       Marina não teve tempo de seguir o materno conselho.


                                     Bruno Brum Paiva        


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Fragrância













De tanto procurar
flores
encontrei
a primavera
  
      Bruno Brum Paiva

sexta-feira, 20 de setembro de 2013
















As Corujas
de Tavares


Há objetos em que o uso ultrapassa o significado primário do próprio nome. A coruja a que me refiro, quem diria, não é a ave símbolo da inteligência e sim um acessório para o trabalho em dias de sol. Naquela cidade litorânea, até fins da década de setenta, apresentar-se à sociedade exigia algumas regras comportamentais que bem justificava a importância de ser visto como um cartão de visitas para o seu futuro social. A moça, entre outras coisas, não poderia estar com a pele escurecida pelo sol, podendo tal feito culminar com a evaporação precoce de um eventual casamento em alinhavo, pois o trabalhar na roça era estigma de escravidão. Como uma donzela que almeja lograr um belo par, dizendo-se bom partido, aparece enegrecida pelo sol da labuta?
Surge então a coruja, uma primitiva armação de arame coberta com pano originalmente vindo como saco de açúcar. A armação, uma meia-lua que, com o sol de frente, a pessoa o avançava, fazendo então uma longa aba que protegia totalmente o rosto. Abaixo do queixo ficava preso com uma fita um delicado barbicacho. O mais incrível era ver aquela perfilhação de meninas perpendiculares aos canteiros de cebola, feijão ou milho, com suas corujas alvejadas e ora soltas à frente, ora suspensas à testa, quando então o sol já queria adormecer no horizonte. Entre o alaranjado crepuscular e o pipocar das estrelas muitas viagens de semeio, muda ou capina das respectivas culturas de época eram feitas até que alguém –sempre há um líder entre os trabalhadores- dava o sinal de que o expediente chegara ao fim. Esse ato, em se tratando de um sábado, era apenas um hiato entre a jornada de trabalho e o baile. É claro que em plena lavoura, independente do calor, mangas compridas seguidas por luvas colaboravam na performance visando manter as casadoiras lânguidas e formosas. Pó de arroz, clara de ovos, óleo de mocotó e babosa completavam os ingredientes para deixar pele e cabelos aconchegantes e como boas iscas para o enlace.
Com o passar do tempo e a mudança dos hábitos, a coruja vai lentamente cedendo espaço aos chapéus de palha e bonés. Hoje, a proteção dá-se por uma questão de saúde e não estética, dada a perfuração da camada de ozônio e a sensação térmica sufocante. Por ironia do destino e consequentes modificações ditadas pelo mercado da moda, o atual branquela é aquele que trabalha, e numa sociedade de profundos traços e ranços escravocratas o desprezo pelo trabalho faz com que as netas das que trabalhavam sob corujas e luvas, não estando suficientemente bronzeadas pelo que significa praia e jamais trabalho, busquem então um complemento até artificial para que a pele não fique branca, sob pena, do outro lado de uma mesma moeda, de se verem rejeitadas por não acompanharem o que temos como valor vigente de pele.
Atualmente, nossas corujas repousam na memória à espera de um reconhecimento quem sabe em forma de museu.
Em tempo: essas corujas guardiãs residem na praia do Mar Grosso, em Laguna/SC. Fotografia registrada na última passagem pela terra de Anita, março de 2008.


Bruno Brum Paiva