domingo, 25 de março de 2012

Dança das cabeças


  

A carga das formigas
acompanha
a dança do fogo.

O crepúsculo
abocanha
o sonho.


     Bruno Brum Paiva

terça-feira, 13 de março de 2012

Hospedeira Hospedagem




    Do despertar nada modesto no desjejum à saída do Mosteiro;
    Do trajeto de ônibus à caminhada até a efêmera morada;
    Do conhecido ao reconhecido, desbravando o desconhecido;
    Passeios vespertinos pelo bairro Moinhos de Vento;
    Crepúsculo;
    Nascer da lua cheia vista do 16º andar;
    Jantar simples, leve, divertido e descompromissado;
    Desejo de "boa sorte" à noiva que saía do hotel;
    Todos engomados e nós, de chinelos;
     Despertando às seis da manhã no 16º andar;
     Sol nascente;
     Banho de piscina solitos às oito no 22º andar;
     Aviões de todo tipo saindo/chegando do Salgado Filho;
     Barcos de todo tamanho singrando o Guaíba;
     Não vimos a ponte em suspensão;
     Café da manhã caudaloso;
     Arrumação;
     Lenta caminhada de retorno pela Padre Chagas;
     Mateada no Parcão;
     Muita conversa;
     T-9 até a Praça D. Feliciano;
     Ônibus TV até o Mosteiro;
      Muito sono, muita emoção;
      Muita risada;
      Soninho da tarde;
      E total agradecimento.

               Bruno Brum Paiva



domingo, 11 de março de 2012

Nascente Data, ed. 43














Santa Casa, Rio Grande, 10 de Março de 1969.
Moinhos,  Porto  Alegre, 10 de Março de 2012.
Gracias por todo!



                                    Bruno Brum Paiva



sábado, 10 de março de 2012

Espelho 2




É verdade o que vejo?
Sim, a dança
o vento
as pálpebras
aquele olhar felino,
fêmeo
espelhado  - ou não
este espelho não vibra em minha face
sou eu que caminho,
és tu que trilhas.
Já pode parecer muito,
o pouco,
mas ainda é muito o pouco
e a validade mede-se a cada passo.

Bruno Brum Paiva

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A casa de dona Eva ficou triste









    Em plena efervescência do Fórum Social Mundial, embora o cenário das discussões passasse longe desse palco, Porto Alegre amanheceu um pouco mais pobre porque a morte subtraiu de nosso convívio o grande guardião do Theatro São Pedro. Foi-se para o outro reino da vida o grande artista que nunca foi ator, aquele singelo senhor que todos os dias dos últimos 36 anos abriu e fechou cada janela do magnífico teatro que leva o nome do padrinho de nosso Estado.

      Algumas vezes por semana faço o caminho Cidade Baixa/Centro ou vice-versa cruzando a Praça da Matriz e tangenciando o Theatro São Pedro. E não raro encontrava seu Oscar, chinelos havaianas, olhar sereno, sempre mirando aquela casa e conferindo se alguma pomba ou quem sabe mosca não havia deixado a marca naquele sagrado templo. Peça por peça, degrau por degrau, janela por janela, tudo era conferido por ele.

        Sempre tive uma curiosidade imensa pelo porão do Theatro e seus habitantes centenários, os fantasmas, os ensaios, os choros, as angústias e ansiedades deixadas antes e depois de cada espetáculo. Como era a vida lá embaixo? E um dia, após um show, desci com seu Oscar pelas escadarias e caminhamos vagarosamente por aquele labirinto. Falou, mostrou, registrou parte do que viu e viveu durante as décadas que ali habitou desde a reabertura da casa, em 1984.

        Na semana passada seu Oscar, 85 anos, despediu-se da velha morada para sempre. Missão cumprida, o espetáculo não pode parar. Mas a casa de dona Eva ficou mais triste.

                          Bruno Brum Paiva




quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O Farol e o Fórum


     Porto Alegre rumina mais uma edição do Fórum Social, agora tematicamente universal e não mais sob pseudônimo Mundial. Caminhadas, debates, shows, performances. A cidade fica rica e de mão dupla em suas relações, conseguindo manter seu ar provinciano e ao mesmo tempo experimentando o cosmopolitismo.

      Na ponta nordeste do mapa sulino uma referência turística é saudada em comemoração: o centenário do Farol de Torres, peça importante que dá luz e rumo a essa tão perigosa navegação do Atlântico. 

        Um evento marcando uma década de fomentos, luzes, ideias; um farol celebrando um século de guia aos viajantes das águas, que também precisam de luzes, que também fomentam ideias. Ideias que propõem  outros rumos, rumos que buscam outros ventos, ventos que esparramam outras ideias.


                                                        Bruno Brum Paiva

domingo, 15 de janeiro de 2012

Cômoro da Casca





      

  No último Natal visitei a Praia do Pescador, três léguas ao sul das Barracas, na Costa da Lagoa. Entre o café da tarde e o mate que antecede a entrada dos barcos no mar de dentro encontrei Teodoro fuxicando sua rede. Faceiro por mais uma noitada junto a Dorinha, respondeu antes de ouvir minha saudação vespertina apontando para água. Era seu jeito delicadamente xucro de oferecer sem cerimônias tudo que possuía, o conhecimento dos caminhos que serpenteiam bancos de areia até o canal onde os maiores e mais calmos peixes transitam livremente antes que uma rede os capture.

      Teodoro necessitava conversa, estava com o estoque abarrotado por três noites consecutivas de ótima investida em certeiros cardumes, pois só ele conhece bem os ventos que encurralam as tainhas na enseada do Rincão do Cristóvão Pereira. Optamos então por uma caminhada pela beira da lagoa até o Combro da Casca, um sambaqui de ancestralidade imemorial em nossa cultura açoriana. Ali fora um ponto de encontro de antigas tribos indígenas, uma referência geográfica anterior ao Farol do Capão da Marca e que cumpria, pelo  elevado tamanho de seu cume branco pelas conchas e areia da praia, uma espécie de balizamento primário à antiga navegação lacustre. O Combro da Casca era gigante, imponente, reluzia soberano por planícies desinfestadas de pinus e eucaliptos que a monocultura impôs ao agricultor contemporâneo. Era visto com nitidez por quem trafegava além das Barracas.

      Teodoro diminuiu a fala, pausou, olhou para o horizonte e para si mesmo comparando a subtração que o tempo relegou ao Combro da Casca à própria existência. Estaria ele também diminuindo sua força e quem sabe tamanho? Pediu-me então que registrasse para que um filho seu ou quem sabe neto pudesse conhecer o Combro da Casca ainda maior que qualquer pessoa ou animal em seu topo, ampliando dessa forma o  horizonte dos campos e das águas que desenham a Costa da Lagoa.


                          Bruno Brum Paiva
               http://noslemosporai.blogspot.com